
Carlos Lessa
Em
entrevista exclusiva ao Bafafá, o professor Carlos Lessa, ex-presidente
do BNDES tece duras críticas à política econômica do governo Lula.
Segundo Lessa, o presidente insiste em políticas monetárias e
financeiras suicidas, que constituem “um verdadeiro Tsunami, que
destrói as esperanças”.
Lessa,
finalmente, revela quem são as elites que enganam o presidente. “São as
elites financeiras nacionais e internacionais. São as únicas que ganham
neste quadro de estagnação da economia, com esta taxa de juros
devastadora. O que elas fazem com seus lucros? Aplicam no mercado
financeiro. Só elas ganham, todos os demais perdem. Veja a evolução dos
lucros do sistema bancário brasileiro”, fuzila.
Sobre
a eleição na Câmara dos Deputados, Carlos Lessa é ainda mais
contundente. “Tem cara de um 11 de setembro local. Essa resposta foi um
não dado pelo Congresso às políticas centrais que são executadas”.
Confira a entrevista
Como viu a derrota do governo na eleição para a presidência da Câmara dos Deputados?
Tem cara de um 11 de
setembro local. Considero de uma imensa gravidade o PT não estar
presente na mesa da Câmara. Isso ou é a representação de uma espantosa
incompetência no espaço da negociação política ou é uma desorganização
das forças que construíram a frente do governo. Ou talvez seja uma
combinação das duas dimensões. É inteiramente inaceitável um canal
imperfeito ou bloqueado entre as ligações entre o executivo e o
legislativo. Isso produz sem dúvida problemas seríssimos de gestão. Um
clima de estranheza entre os dois poderes é muito prejudicial para as
políticas públicas. Eu imagino que tem sido por causa do relacionamento
do Ministério da Fazenda com os deputados, governadores, secretários de
Estado. O ministro Palocci disse não para todo mundo. A resposta deles
foi eleger o Severino. O Congresso espelha o estado da política
brasileira. Essa resposta foi um não dado pelo Congresso às políticas
centrais que são executadas. É um não à política de juros altíssima e à
política de superávit fiscal. Eu acho que está havendo uma erosão das
forças que convergiram em torno da eleição do presidente Lula. Eu não
sou analista político e jamais pretendi sê-lo, mas eu digo que Lula
simbolizou duas dimensões muito importantes. Uma é a ascensão popular
que converteu um dos seus em presidente. Isso é um fantástica
demonstração da potencialidade do povo brasileiro, certamente
simbolizada na biografia do presidente Lula. O povo ao votar nele
manifestou claramente que queria uma mudança, inclusive do perfil do
presidente. Não queria mais um presidente nascido dos processos
clássicos da elite brasileira. Queria um homem do povo, visceralmente
comprometido e com total sensibilidade para com ele.
A segunda dimensão é
que estava associada na cabeça de todos os eleitores a idéia de
mudança. Acho que foi a combinação dessas duas dimensões que produziu a
história do Lula, muito maior do que a própria evolução e organização
do PT.
O que acha da ideologia do PT?
Não acho que o PT
seja um partido de base doutrinária porque ele foi construído de
vetores muito diferentes. Um vetor é de matriz anárquico-sindicalista
que tem uma suspeita profunda em relação ao Estado como é da tradição
trokista. Isso é complicado, pois essa posição no limite tangencia com
o liberalismo. Outro vetor é de origem católica, de esquerda,
profundamente imbuído do sentimento de que é necessária uma renovação
ética numa sociedade que tem um passado cheio de iniqüidades. Um
terceiro vetor é sindicalista, que é uma apresentação na arena política
do trabalho por sua forma organizada.
Na verdade, os
vetores católico e sindical convergiram na construção do PT. Mas o
partido, por conta dessas matrizes, é uma organização de frente, não é
um partido coeso. Porém, há um denominador comum nos três vetores: é
necessário mudar. Acho que o Lula foi maior do que o PT, no sentido que
pôde não apenas dispor desta frente pela mudança como do seu perfil
carismático. Eu estou falando de dois anos atrás. Durante 2003, as
forças do país inteiro que apoiaram o presidente ficaram esperando os
sinais de mudança e o próprio Lula fez uma variedade de gestos nesta
direção.
Como vê o Programa Fome Zero
O Fome Zero é sob meu
ponto de vista uma belíssima proposta de mobilização da vontade
nacional em cima de um compromisso tácito: ninguém ir dormir com fome.
Acho que o país pode fazer isso o que demonstra uma imensa demonstração
de vigor nacional. O Fome Zero entretanto, hoje, já não é mais falado.
Nasceu com grande força do ponto de vista do imaginário mas foi sendo
adulterado pois foram sendo colocados uma variedade imensa
de componentes. Não me venham com esse discurso de que é melhor ensinar
a pescar do que dar o peixe. A hipótese por trás disso é a seguinte:
enquanto não aprende a pescar tem que ter peixe para comer, pelo menos.
O Rio tem que ter muito peixe e além disso as pessoas têm que ganhar a
vara de pescar. Tem que começar a dar o peixe sim. Eu acho que houve um
equívoco na construção do primeiro movimento do Fome Zero. Não há
dúvida que a situação de miséria é dramática nos grotões rurais
brasileiros. Mas existe fome nas metrópoles, no Rio de Janeiro, aqui no
Cerro-Corá pertinho da minha casa no Cosme Velho. Existe fome em todo o
corpo social brasileiro e talvez a maior parcela não esteja nem nos
grotões, mas sim no espaço urbano onde não há nenhuma possibilidade de
produção de auto-consumo. Começar pelos grotões tem um valor simbólico,
mas não dá para ficar só neles. Creio que aí houve um tropeço na
condução do programa. A coisa mais difícil no Planeta é distribuir
alimentos. Redes de distribuição são dificílimas de montar, quem sabe
disso é a União Soviética, que teve grandes problemas nesta área. Na
escala de um banquete colossal, que era o que íamos fazer com o Fome
Zero, é quase impossível. Você só pode fazer isso a partir das redes já
existentes. Qual é a maior rede existente no país? É a rede primária,
são as escolas. Nós já temos no Brasil um projeto chamado Merenda
Escolar que funciona mal e que não é um programa de nutrição, pois tem
interrupção no período de férias. Se você alimentar uma pessoa durante
quatro meses e não der comida durante 10 dias ela morre. O que seria
então necessário é tomar a rede escolar primária e convertê-la numa
rede de conferir, dar, três refeições diárias a toda a população em
idade escolar no país. É exeqüível, pois já existe a rede escolar. Eu
não consigo entender como começaram pelos grotões. O que aconteceu
então? O Fome Zero desapareceu, uma idéia fantástica de inclusão
social. O presidente apostou profundamente neste programa.
Qual é o calcanhar de Aquiles do governo Lula?
O Programa de
Bolsa-Família tem crescido muito no governo Lula apesar do cadastro
herdado da administração anterior. O problema é que tudo isso é
acessório em relação à inclusão social. O essencial é geração de
empregos e melhoria salarial. Essa era a mudança principal pretendida
por todos os que votaram no Lula. Uma sociedade, como a brasileira que
tem 12 milhões de desempregados e outros 13 milhões de sub-empregados,
numa população economicamente ativa de 80 milhões de pessoas, nós temos
quase 30% numa situação extremamente precária. Isso explica a fome da
Favela do Cero-Corá, nas calçadas de São Paulo, em espaços onde ela não
deveria existir. Se as pessoas têm um emprego de qualidade (com
carteira assinada e legislação trabalhista), em primeiro lugar comem. O
mais grave é que 40% dos desempregados têm menos de 25 anos. Nós não
estamos dando à nossa juventude segurança de uma vida útil e produtiva.
Nós estamos matando a esperança na juventude. Isso é muito grave.
Neste domínio a
administração Lula não fez nada em 2003 e praticamente nada em 2004. Ou
seja, durante metade do governo essa questão foi procrastinada. Em nome
de quê? Em nome de prioridades com políticas monetárias e financeiras
suicidas. Eu quando saí do BNDES fiz a denúncia de que a política
monetária era um pesadelo. Na verdade é mais do que um pesadelo é um
Tsunami, um vendaval que destrói as esperanças. Que mudança teve para
quem estava desempregado e continua desempregado? Todos os que apoiaram
o governo ficaram esperando em 2003. Só que o governo, ao escolher o
medicamento, errou. Escolheu o medicamento neo-clássico, neoliberal,
uma política de estabilização absolutamente convencional. Na verdade
tentou fazer melhor que o governo anterior vinha fazendo. Isso frustrou
uma quantidade enorme de pessoas que esperavam mudanças efetivas. Mais
do que isso: de certa maneira se descaracterizou em relação ao governo
anterior. Os tucanos podem dizer o quê? Qual é a novidade? “Nós
preparamos a cama para a administração do PT poder colher esse vôo de
galinha de crescimento que houve no segundo semestre de 2004”. Aliás, é
importante salientar que se construiu um discurso eufórico em torno de
um resultado muito pequeno. Caiu a taxa de crescimento industrial. Você
não segura uma recuperação da economia se você não eleva a taxa de
investimento.
Com esta taxa de
juros brutal e com esse enorme esforço de superávit fiscal é impossível
elevar a taxa de investimento privado ou público. A verdade é que o
ministro Palocci tapa os ouvidos de uma maneira impressionante a toda e
qualquer sugestão de uma política de ampliação do investimento. Aí que
está o erro fundamental. Este é o calcanhar de Aquiles.
Não teve nada de significativo na administração Lula?
O presidente Lula
acertou em uma quantidade enorme de temas acessórios. Más há um erro
fundamental em matéria de política econômica. Palocci e o Conselho
Monetário Nacional taparam os ouvidos completamente apesar dos apelos
da sociedade. Em matéria de política externa o presidente produziu uma
mudança extremamente substancial. O presidente finalizou de maneira
positiva inumeráveis questões fundamentais, entre elas a transposição
de águas do Rio São Francisco, a reformulação ferroviária brasileira.
Só que na questão central o presidente errou.
Quem são afinal as elites que enganam o presidente Lula?
São as elites
financeiras nacionais e internacionais. São as únicas que ganham neste
quadro de estagnação da economia, com esta taxa de juros devastadora. O
que elas fazem com seus lucros? Aplicam no mercado financeiro. Só elas
ganham, todos os demais perdem. Veja a evolução dos lucros do sistema
bancário brasileiro. O país todo está parado e os lucros do sistema
financeiro crescem sem parar. A parte de salários na renda nacional não
pára de encolher. Então eu digo: a mudança fundamental não aconteceu. O
investimento estrangeiro não vem pela estabilidade, vem quando o país
tem dinamismo. A China está recebendo investimentos, pois está
crescendo sem parar.
Você se sentiu desrespeitado pela forma como foi demitido?
Pelo contrário, eu
acho que o presidente foi extremamente gentil, pois chegou a me
oferecer um jatinho militar para ir à Brasília, uma vez que estava com
a perna em más condições. Falei com ele mais de uma hora ao telefone.
Eu sempre fui no governo da cota do presidente e não entrei por nenhuma
composição política. Obviamente, por razões que nem precisava explicar
para mim, pediu a cadeira de volta. Eu só tenho uma mágoa nesse
episódio: não ter sido autorizado à transmissão do cargo. Foi a
primeira vez na história do banco que isso não aconteceu. Acho que isso
foi muito ruim para mim, pois ia fazer um discurso de despedida onde ia
dizer o que tinha feito e o que eu pensava para o banco. Eu teria uma
tribuna perfeita para botar um ponto final nessa trajetória. Como isso
não aconteceu, estou escrevendo um livro sobre meus dois anos à frente
do BNDES.
Como está vendo a gestão de Guido Mántega no BNDES?
Mántega é um homem de
bem. Mas, acho que ele loteou a diretoria, fragmentou. Ele aumentou
muito o peso de pessoas oriundas da área bancária e financeira dentro
da alta administração do BNDES. Eu fiz uma diretoria de professores e
quadros desenvolvimentistas do banco. Eu quero aproveitar para
felicitar o Mántega pela atitude que tem assumido de contestar
frontalmente o secretário do Tesouro, Joaquim Levi num ponto essencial,
inclusive que me fez bater no Meirelles que eu acusava de ser o regente
da orquestra: a insinuação de que a taxa de juros tem que subir e que
as operações de crédito direcionadas devem ser compartidas com os
bancos privados. Sintomaticamente, o Elio Gaspari disse que já começou
a fritura do Mántega, apesar de eu achar difícil isso acontecer pois
seria como fritar um braço do próprio Lula.
Confere que o Sr. está sendo assediado pelo casal Garotinho?
Não estou sendo
assediado, primeiro porque sou amigos deles há muitos anos, desde os
tempos que era prefeito de Campos. Ele fez uma administração muito
interessante em Campos, de inclusão social. Independente de qualquer
coisa eu gosto dos dois. Mas não fui assediado não. Eu tenho sido muito
procurado para conversar sobre o Brasil e muitas destas conversas
acontecem aqui em casa.
Aceitaria integrar o governo de Rosinha?
Eu acho que sou muito
mais útil ao Brasil aonde eu estou do que ser do Executivo de qualquer
área. Eu assumir uma secretária estadual é como se estivesse me
retirando de um imenso banquete para me oferecer um sanduíche. Porém,
se alguém fizer uma demonstração de que é imprescindível que eu assuma
um determinado cargo, eu topo qualquer coisa, em nome de um grande
projeto. Para isso, é preciso fazer esta demonstração.
As elites que enganam Lula
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